Máquinas esvaziam a capital dos boias-frias

May 22, 2017

Com a mecanização quase total da lavoura de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo, figura do cortador se torna cada vez mais rara.

Depois de três dias viajando de ônibus desde Timbiras, no leste do Maranhão, o trabalhador rural Adão Alves da Silva, de 23 anos, desembarcou em Guariba, interior de São Paulo, em maio do ano passado, para trabalhar no corte da cana-de-açúcar. Ele se transformou em personagem raro. Menos de 150 migrantes chegaram de outros Estados nos últimos 12 meses para se empregarem como cortadores de cana em canaviais da região. Há dez anos, vieram 9.600, segundo a Pastoral do Migrante da Igreja Católica.

A quase extinção dos cortadores – apelidados de boias-frias – em São Paulo tem relação direta com a proibição da queima da palha da cana-de-açúcar, processo que se iniciou, de forma gradual, em 2007, e termina este ano. Sem a queima, o corte manual da cana torna-se inviável, e é necessário o uso de máquinas. Pela legislação, apenas pequenas propriedades, com menos de 150 hectares, ou áreas com declives acentuados, onde as máquinas não têm acesso, terão permissão para continuar com o corte manual.

Desde a safra de 2006/07, houve queda de 91,5% na área de colheita com autorização para queima em São Paulo. O número de colheitadeiras aumentou de 750 naquela safra para 3.080 na safra 2016/17, além de 670 colhedoras terceirizadas pelas usinas. Na safra atual, o governo do Estado autorizou a queima de apenas 136,9 mil hectares – 2,5% da área total plantada com cana-de-açúcar –, o menor número da história.

Rumo. Guariba, que no passado ficou conhecida como a “capital dos cortadores de cana”, por fornecer força braçal às usinas da região de Ribeirão Preto, maior produtora de açúcar e álcool do País, sofre de forma aguda os efeitos dessa mudança. “Antes, com a falta de mão de obra na região, as usinas e plantadores iam buscar cortadores em outros Estados”, lembra o secretário municipal de Administração, Daniel Louzada. Mas, com a proibição gradativa da queima da cana, as colheitadeiras modernas, que fazem o trabalho de até 100 trabalhadores braçais, tomaram conta das plantações. “Só uma usina do município, a Bonfim, chegou a ter 7 mil cortadores. Hoje, é tudo colheita mecânica. Não há mais alojamentos e até as casas de colonos foram demolidas.”

O processo de migração se inverteu. “A grande força migratória que vinha para a safra e retornava para seus Estados não existe mais. Aqueles que se fixaram aqui e não mudaram de atividade, agora viajam para cortar cana em Goiás.” Diariamente, saem cerca de dez ônibus da cidade com ex-cortadores que agora trabalham na indústria, comércio e serviços de Araraquara e Ribeirão Preto.

A chegada da mecanização mudou o perfil dos canaviais e trouxe para a região de Guariba empregos novos e mais bem remunerados que o de cortador de cana, embora em número menor. Uma nova profissão é a de mecânico de colheitadeira, que José Noli, de 52 anos, abraçou. Antes, ele era mecânico de trator. “Estamos com cinco colhedoras nesta fazenda. Enquanto quatro trabalham, uma fica na manutenção preventiva.”

Uma máquina como a que ele atende colhe 300 toneladas por dia, trabalho equivalente ao de 80 homens. “Elas operam também à noite, o que o braçal não pode fazer.” Cada máquina precisa estar acompanhada de pelo menos quatro profissionais: um operador, um soldador e dois mecânicos. Os salários variam de R$ 2,5 mil a R$ 3,5 mil (O Estado de S.Paulo, 21/5/17)

 

  • Vida melhora, mas não para todos

Para alguns cortadores, mecanização trouxe oportunidades; para outros, rotina segue árdua..
O avanço da mecanização da colheita de cana empurrou a maior parte dos cortadores para longe das lavouras, mas alguns viram ali a chance de mudar de vida. Cortador de cana desde os 16 anos, Valdemir Araújo, por exemplo, conseguiu mudar de profissão sem trocar de lugar. Hoje, aos 43 anos, comanda uma colheitadeira que custa R$ 1 milhão. 
Depois de alguns anos na linha de frente do corte de cana, os patrões perceberam que ele gostava de máquinas. Em 2014, depois de fazer cursos na própria usina, ele assumiu o comando de uma colheitadeira. “Vim de baixo e fui subindo com muita dedicação e sacrifício.” O salário também evoluiu. “Hoje, recebo quase R$ 3,5 mil por mês. Se tivesse continuado como cortador, não tiraria mais que R$ 1,5 mil.” 
Para outros, a mudança veio por motivos diferentes. José Aristides da Veiga, o “Zezão”, de 64 anos, trocou o facão pela tesoura. Após 35 anos nos canaviais, montou uma barbearia no bairro Monte Alegre, periferia de Guariba, e dos tempos de trabalho duro na cana só guarda o antigo uniforme. “Agora, só corto barba e cabelo.” Mineiro, veio ainda jovem para a cidade paulista, em 1971. Ele abandonou os canaviais porque contraiu doença de Chagas e também porque a remuneração diminuiu. 
Mas, apesar de ser uma profissão quase em extinção, cortar cana ainda é o ganha-pão de pessoas como Leandro Honorato Ferreira, de 32 anos. Ele nasceu em Guariba e sempre achou que essa atividade fosse coisa para migrante. Ele estudou até a quinta série, fez curso de soldador e trabalhou em várias empresas. Mas, ao ficar desempregado no ano passado, não viu alternativa. “Já tinha feito bicos como cortador. Uma usina estava pegando gente e entrei.”
Ferreira ocupou a vaga de migrantes que não chegaram do Maranhão. Ele sai de casa às 5 horas e conta que puxa o facão até as 16 horas para ganhar uma diária de R$ 70. O corte de cana crua – que servirá de muda para uma nova planta, atividade que ainda depende da intervenção humana – dura três meses. Quando termina o serviço, volta o desemprego. 
A rotina do maranhense Adão Alves da Silva é igualmente desgastante. O dia dele começa às 4 horas. Sai da cama, põe o arroz no fogo, esquenta o feijão e prepara o uniforme. “O ônibus passa às 5 horas, mas tem uma hora de viagem.” Às 17h30, quando volta para o cômodo alugado por R$ 150 mensais, ele ainda vai lavar roupas e preparar o feijão para o dia seguinte. Solteiro, Adão guarda dinheiro para levar para o pai, a mãe e seis irmãos que ficaram em Timbiras (MA), para onde vai em dezembro. Ele ganha R$ 1.500 por mês, “um bom dinheiro”, diz, e sonha em comprar uma casinha no Maranhão. “A vida lá não é ruim, só não tem trabalho.” 
Em uma década de canavial, Maria Lucinete Caetano, de 35 anos, quatro filhos e sete netos, ganhou o suficiente apenas para dar de comer à família. Para pagar o aluguel do casebre, precisou empurrar também as duas filhas para as linhas de corte. “Até cinco anos para trás era bom, mas tem semana que a gente trabalha só três dias” (O Estado de S.Paulo, 21/5/17)

 

 

Fonte: Brasilagro

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