Usina hoje vende energia em vez de produzir etanol

November 6, 2017

 

Projeto GranBio, da família Gradin, tinha o objetivo de produzir 1 bilhão de litros de etanol em 2020; meta foi adiada em uma década.
Os problemas enfrentados pela família Gradin atrasaram em pelo menos três anos o plano de uma segunda usina do grupo GranBio, anunciada inicialmente para 2016. E a meta de produzir 1 bilhão de litros de etanol foi jogada de 2020 para, ao menos, 2030.
Neste ano, a empresa decidiu suspender a produção do etanol de segunda geração em sua fábrica e colocá-la para gerar energia. Erguida em São Miguel dos Campos (AL), a primeira usina de etanol dos Gradin foi projetada para produzir 38 milhões de litros de etanol por ano. Com a medida, produziu só 5 milhões de litros em 2017. 
A ideia era retomar a produção do biocombustível no início da safra, em setembro. Mas, diante dos atrasos e do prejuízo acumulado, Bernardo Gradin, presidente da GranBio, colocou a palha de cana colhida para produzir energia, aproveitando os altos preços pagos pela eletricidade no sistema Nordeste, que enfrenta seca histórica.
“A GranBio tomou uma decisão empresarial apropriada para o momento”, afirma Plinio Nastari, da Datagro, uma das mais importantes consultorias do setor sucroalcooleiro.
Segundo ele, o etanol de primeira e de segunda geração tem forte potencial para avançar no País. O setor ainda tenta se recuperar da forte crise que se abateu sobre as usinas a partir de 2010. A falta de competitividade levou uma série delas à recuperação judicial.
A produção de etanol na usina de Alagoas, mesmo que restrita, só é possível hoje porque os Gradin decidiram investir no desenvolvimento de tecnologias que substituíssem a solução vendida pela italiana Beta Renewables, do grupo Mossi Ghisolfi. Apostaram em patentes próprias por meio de sua subsidiária americana, a API, na qual detém 25%. 
Colocando a usina para gerar energia, a GranBio deve faturar cerca de R$ 90 milhões neste ano, valor que espera elevar para R$ 200 milhões até 2019, quando acredita que enfim dará lucro, segundo fontes a par das projeções da companhia. Os Gradin, porém, já não se fiam no plano original da empresa. A ideia era erguer dez plantas, por R$ 4 bilhões. Agora, o objetivo é iniciar a construção da segunda usina e então checar se é possível colocar de pé as demais.
Grupo
Enquanto a GranBio tenta decolar, outros negócios da família Gradin que estão sob o guarda-chuva da GranInvestimentos avançam. O grupo foi criado com a saída de Bernardo e seu irmão, Miguel, da Odebrecht, no final de 2010, onde comandavam a petroquímica Braskem e a Odebrecht Óleo e Gás, respectivamente. 
A GranEnergia, braço liderado por Miguel, é dona de empresas de apoio à indústria offshore que, juntas, devem faturar R$ 400 milhões neste ano. 
Procurada, a GranBio afirmou que trajetória de pioneirismo é sempre mais difícil e que, após refazer vários desenhos de rota, está confiante de que o projeto seguirá com sucesso.
Gradin e Odebrecht tentam acordo fora dos tribunais
Enquanto empenham-se em sanar as dificuldades de seu projeto de etanol, os Gradin buscam achar uma saída para um problema mais antigo e rumoroso: a disputa com os Odebrecht.
A briga entre as duas famílias baianas arrasta-se desde 2010 na Justiça, quando os dois clãs romperam. Neste ano, porém, as famílias iniciaram negociações diretas para chegar a um acordo fora dos tribunais. 
Não é a primeira vez que há uma tentativa de um acerto extrajudicial entre as partes. Mas, diferentemente de outras ocasiões, as tratativas estão mais amigáveis, segundo fontes a par das conversas. 
A situação delicada da Odebrecht, que tem dívida bilionária e enfrenta queda de receitas em meio a uma aguda crise de reputação após ser alvo da Lava Jato, ajudou a baixar os ânimos.
A forçosa troca de comando na Odebrecht, que teve de afastar 77 delatores e hoje é presidida por Luciano Guidolin, renovou a interlocução com os Gradin, que ainda são donos de 20,6% da companhia.
Os Gradin, por sua vez, decidiram contratar um executivo para negociar em seu nome. Foi escolhido Pércio de Souza, fundador e sócio da butique de investimentos Estáter, segundo duas fontes com conhecimento das negociações.
Não está mais sobre a mesa a ideia de dar aos Gradin pedaços de empresas do grupo – até porque boa parte dos negócios foi dada a bancos como garantia de empréstimos.
Histórico
As famílias foram sócias por quase 30 anos, mas romperam em 2010. Na época, os Odebrecht quiseram exercer opção de compra oferecendo US$ 1,5 bilhão pela fatia de Victor Gradin e seus filhos, Bernardo e Miguel, então presidentes da petroquímica Braskem e da Odebrecht Óleo e Gás, respectivamente. Os Gradin recusaram. Diziam que não queriam sair da empresa e, se o fizessem, a conta seria muito mais salgada, de cerca de US$ 5 bilhões.
Bernardo Gradin, Odebrecht e Pércio de Souza não quiseram comentar (O Estado de S.Paulo, 6/11/17)

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