Atraso na revolução digital: grandes produtores de cana correm atrás para se desenvolver

September 26, 2018

A falta de conectividade atrasa as fazendas brasileiras. Ganhos de eficiência podem garantir grandes economias para os produtores

 

Os produtores brasileiros precisam de wifi.

O Brasil, sede de algumas das maiores fazendas em expansão do mundo, está atrasado na revolução digital que veio para automatizar a agricultura. Isso se deve à falta de uma rede de comunicação rural que seja viável.

Atualmente, pelo menos uma marca de equipamentos agrícolas ansiosa para vender produtos de alta tecnologia está explorando essa brecha a fim de ajudar na construção da cobertura sem-fio.

 

Nesta primavera, a Deere & Co. lançou um programa para conectar as fazendas brasileiras a uma rede de dados. Deere, junto com o fornecedor de redes de comunicação Tropico, pretende vender torres e antenas no país, onde o serviço de internet é escasso.

 

Outros fabricantes de equipamentos agrícolas estão perseguindo estratégias similares. A AGCO Corp., fabricante de tratores e outros equipamentos, está explorando a vinculação de seus equipamentos à nuvem via satélite em lugares onde o sistema de telefonia não está disponível.

 

A ideia, em ambos os casos, é permitir que os produtores monitorem o trabalho feito no campo remotamente e em tempo real, analisando os dados e tomando decisões oportunas sobre os cronogramas de plantio e colheita.

Agricultura de precisão
 

Os produtores vão pagar pela instalação das antenas. Assim que elas estiverem conectadas, os operadores da Deere vão alinhar tratores de última geração conectados à rede, além de outros equipamentos, para tirar total vantagem da que hoje é conhecida como agricultura de precisão.

 

“Nós queremos tentar fazer isso acontecer o mais rápido possível”, disse Sam Allen em uma entrevista à Bloomberg este ano. Ele é chefe executivo da Deere, a maior empresa de maquinário para fazendas do mundo e que fez da agricultura de precisão seu maior foco.

Agricultura de precisão se refere ao desenvolvimento de tecnologia de GPS, big data e inteligência artificial para maximizar os rendimentos. Este já é um negócio em expansão, com o crescimento global anual projetado em 14%, chegando a U$ 10 bilhões até 2025. A falta de comunicação rural no país indica anos de atraso na implementação.

 

Enquanto o principal cinturão agrícola do país é frequentemente chamado de “Califórnia Brasileira”, as conexões de celulares e de dados no campo são tão tênues que simples conversas telefônicas se tornam difíceis, afirma Walter Maccheroni, diretor de inovação da São Martinho.

 

Preparação: estar conectado pode mudar tudo
 

O Brasil é um dos maiores exportadores de soja, café e açúcar do mundo, graças a fazendas gigantes que foram esculpidas em uma vasta extensão de florestas e planícies nas últimas décadas. Mas a falta de conectividade significa que os produtores não podem acessar dados de plantio ou colheita em tempo real. Uma indústria agrícola totalmente conectada no Brasil poderia gerar ganhos efetivos no valor de U$ 5,5 bilhões a U$ 21,1 bilhões até 2025, de acordo com um estudo do Instituto McKinsey Global, mencionado em relatório do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 

As maiores fazendas brasileiras estão se preparando. A SLC Agrícola – que cultiva soja, milho e algodão em extensas áreas – tem capacitado técnicos para analisar os dados que vêm do campo. A companhia também criou um comitê especial para garantir a segurança da informação e avaliar centenas de aplicativos específicos para este fim que foram submetidos por desenvolvedores de software.

 

As usinas de cana-de-açúcar do país também estão se preparando. Com uma frota de mais de 2 mil veículos, a São Martinho está construindo uma rede de torres de transmissão para integrar campos com mais de 300 mil hectares com um centro de controle que ajudaria a antecipar necessidades de abastecimento e problemas mecânicos.

 

Soluções próprias
 

A limitada cobertura de internet no campo fez com que a Raízen, outra gigante do mercado sucroenergético, criasse suas próprias soluções para conectar o campo ao departamento de controle e operação central, localizado a mais de 800 quilômetros da sua unidade mais distante, de acordo com Fabio Mota, vice-presidente do centro de serviços compartilhados da empresa.

 

“Se nós dependêssemos apenas de serviços de conexão oferecidos pelas companhias telefônicas, nós teríamos apenas 60% da área com alguma conectividade”, afirma Mota. “Mas esse número cresceu para quase 100% porque criamos nossas próprias soluções.”

 

Três anos atrás, a companhia tinha aproximadamente 400 colhedoras, sendo que cada uma custou aproximadamente R$ 1 milhão, explica Jose Alberto Abreu, vice presidente de açúcar e etanol da Raízen.

 

“Atualmente, nós precisamos de apenas 290 máquinas para colher a mesma área, já que a conectividade nos permite um melhor uso do maquinário”, acrescenta.

 

Tatiana Freitas e Fabiana Batista


Com a ajuda de Gerson Freitas Jr

 

 

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